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A energia (limpa) é nossa!

Monteiro Lobato foi um dos grandes defensores da exploração do petróleo brasileiro por empresas brasileiras. Nacionalista, uma de suas últimas contribuições, antes de morrer em 1948, foi sua veemente defesa e envolvimento na campanha “O petróleo é nosso!”, amplo movimento popular que, à época, impediu a exploração do ouro negro brasileiro por empresas estrangeiras e que muito contribuiu para a criação da Petrobras, 5 anos depois.
 
A Petrobras cresceu ao longo das décadas seguintes e, apesar de sua manipulação político-ideológica e da ineficiência operacional e econômica apresentada em boa parte de sua história, que lhe rendeu críticas do economista Roberto Campos, que a chamava de Petrossauro e combatia seu monopólio, repetindo o que dizia Castelo Branco: “Se é ineficiente não precisa de monopólio, se precisa, não o merece”, se tornou referência internacional na exploração em águas profundas e em 2009 foi considerada pelo Reputation Institute a quarta empresa mais respeitada no mundo.
 
A Petrobras é a maior organização brasileira e em 2007 era a oitava petroleira do mundo em valor de mercado. Hoje, suas ações em bolsa a coloca num patamar irreal frente às demais empresas de petróleo, por razões diversas, que não são objeto de nossa reflexão.
 
Vendo o cenário como um simples observador, sem considerar fundamentos econômicos, base científica ou especialização no assunto, me atrevo a fazer certas reflexões sobre o sonho megalomaníaco de nos tornarmos grandes produtores de petróleo, que supostamente mudará nossa economia e nos transformará num país de primeiro mundo.
 
Primeiramente, acredito que o petróleo acabará antes das reservas por questões éticas. Ainda haverá muito petróleo a ser retirado das profundezas, mas ninguém vai querê-lo, pois tecnologias alternativas dispensarão seu uso; os carros elétricos serão o novo padrão; e a geração solar e eólica substituirá praticamente tudo que for gerado hoje com petróleo.
 
Depois, percebo que as grandes e centenárias petrolíferas estão perdendo posição para a Petrobras, que certamente não é mais competente que elas. A explicação não seria por terem deixado de investir há muitos anos nesse mercado e apenas colhem hoje o que “plantaram” no passado, aproveitando um mercado que ainda existe e que decairá gradativamente nas próximas décadas, até se tornar insignificante? Se esse pressuposto estiver correto, estamos condenando a Petrobras e o Brasil a um prejuízo sem precedentes em sua história, por concentrarmos hoje centenas de bilhões de dólares num projeto que quando estiver maduro encontrará um mercado em declínio, cujo preço do barril não cobrirá seu custo de operação.
 
Talvez seja um bom momento para nos perguntamos: por que todos estão diversificando seus negócios ou investindo em energias limpas, enquanto nós apostamos nossas fichas num único projeto, baseado num produto do passado? Os árabes investem bilhões em cidades do futuro como Masdar City e Abu Dhabi, e empreendimentos de negócios e lazer, para quando o petróleo “acabar” terem alternativas; Barack Obama em um discurso no senado americano, quando completou o 1º ano de mandato, disse: “liderará o mundo o país que detiver o controle das tecnologias de energia limpa”, e suas universidades centram foco nesse tipo de pesquisa; Os alemães dominam os projetos de energia fotovoltaica, apesar de terem um nível de ensolação muito inferior ao Brasil. Por que somente nós estamos indo no caminho contrário?
 
Perguntar não ofende, então acho que devemos considerar a possibilidade de estarmos errados e avaliarmos as consequências que esse eventual erro possa nos trazer. Será que não seria mais prudente investir parte dos vultosos recursos destinados ao pré-sal para o desenvolvimento de tecnologias de energias limpas, incentivo fiscais a indústria e atração de investimentos privados?
 
O pré-sal certamente é uma dádiva para o país e deve ser explorado, mas a falta de um projeto paralelo alternativo pode frustrar nossos planos de erradicar a pobreza e ser um país de excelência na educação, caso esse cenário aqui imaginado se realize. Quando se toma um caminho errado, é difícil para os envolvidos perceberem e admitirem o erro, especialmente quando a política e a ideologia contaminam a análise. Talvez esteja na hora de nos organizarmos num movimento como dantanho e exaltar o lema “A energia (limpa) é nossa!”. Se estivermos errados, nada de ruim nos acontecerá, mas, do contrário, poderemos evitar para nós brasileiros a descrição do caipira caboclo caracterizada por Monteiro Lobato em seu conto Urupês: “a vegetar, de cócoras, incapaz de evolução e impenetrável ao progresso”. Temos a chance, temos os recursos, mas nos falta o bom-senso.
 
Leopoldo de Albuquerque
Presidente da ADVB-PE e do Instituto Smart City Business
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