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A alquimia tecnológica

Paracelso, pseudônimo de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, (1493-1541). Ele foi um químico antes da química, portanto, um alquimista do século XVI, mas também foi médico, físico e astrólogo. Ele é considerado por muitos como um reformador do medicamento e outros o elogiam por suas realizações em Química e como fundador da Bioquímica.
 
Suas idéias geraram à época grandes inovações tecnológicas e contribuíram para o incremento da Medicina, Química e Física, dentre outras áreas. Paracelso acreditava que a diferença entre o veneno e o remédio estava na dosagem e que a combinação de diversos elementos encontrados na natureza poderia gerar ou não produtos de grande valor para a humanidade.
 
A combinação de elementos realizada pela natureza nos dá o diamante e o carvão. Ambos são feitos exatamente do mesmo e único ingrediente, o carbono. Se combinado de uma forma, obtém-se o carvão, se combinado de outra forma, obtém-se o diamante.
 
Tal qual as idéias de Paracelso para a Medicina e a Química no passado, várias outras tecnologias - bélicas, industriais e científicas - também foram criadas ao longo dos séculos, em diversos lugares do planeta, as quais também foram determinantes para o desenvolvimento científico e sócio-econômico das nações e do mundo. Porém, como as tecnologias  e as inovações nunca detém reserva de mercado por muito tempo, quem melhor as aproveita são as nações cujos “alquimistas” são mais preparados. Aqueles que sabem combinar melhor o “carbono” disponível às condições de temperatura e pressão, conseguem como resultado belos diamantes, enquanto outras nações reiteram em obter apenas carvão.
 
O tema Inovação nunca esteve tão em destaque quanto desde o início da nova globalização, fenômeno geopolítico que trouxe ao cenário econômico mundial uma complexidade nunca vista na História do Capitalismo. Diante de um cenário de intensa competitividade, a inovação foi uma das respostas dada pelo mercado para enfrentar o grande desfio de “sobreviver”.
 
O Brasil, somente mais recentemente, se inseriu na economia mundial globalizada e por isso o nível de competitividade no país vem aumentando assustadoramente, exigindo do setor produtivo grandes investimentos em tecnologia e inovação, não somente para se diferenciar, melhorar seu desempenho ou promover redução de custos, mas também para dar um salto tecnológico e eliminar barreiras naturais, sociais ou políticas.
 
A lógica a ser perseguida é a de transformar conhecimento aplicado em riqueza e para isso faz-se necessária a promoção de uma grande mobilização objetivando a estruturação de um sistema nacional de inovação, que só acontecerá caso o governo disponibilize meios e recursos a empresas e universidades, diretamente, através  do fomento a P&D, e indiretamente, através de mecanismos de incentivos fiscais.
 
Na prática, várias ações já vêm sendo desenvolvidas hoje por empresas, universidades, entidades e governos, tanto na busca por inovações tecnológicas para o aumento da competitividade, quanto na qualificação técnico/profissional para o aproveitamento das oportunidades econômicas acima mencionadas.
 
Aliás, no campo científico temos alguns poucos mas bons modelos brasileiros de sucesso, que estabelecem um padrão desejável de relação produtiva entre empresas e universidades/centros de pesquisa, a exemplo da: a) Embrapa - ao fornecer conhecimento e tecnologias aplicadas ao setor agropecuário durante mais de 35 anos, tornou-se responsável pela consolidação e sustentabilidade desse setor no Brasil; e b) FAPESP - responsável, dentre tantas outras pesquisas, pelo seqüenciamento do genoma, que vem revolucionando as áreas médica, veterinária e biotecnológica. São bons exemplos, mas insuficientes para o atendimento da demanda tecnológica requerida para os próximos anos.
 
O preocupante de tudo é que a magnitude das oportunidades, existentes e potenciais, parece desproporcional diante das iniciativas e ambientes reais e do plantel profissional/técnico hoje disponível. Isso pode representar um “peso morto” para o país, tal qual um carro com um motor possante que deu largada com o freio de mão acionado numa estrada esburacada. Por mais que se acelere jamais ele desenvolverá plenamente seu potencial. Nesse caso, a falta de profissionais qualificados, de pessoas com bagagem escolar que permita um rápido upgrade técnico e de cérebros que inovem tecnologicamente, pode ser esse freio puxado; enquanto a falta de políticas públicas, regulamentação, infra-estrutura e incentivos fiscais pode representar a estrada esburacada, no momento em que o Brasil se consagra como um dos “carros” mais possantes do mundo.
 
Os desafios são grandes e somente com empenho de todos os agentes, organizações e poderes constituídos poderão ser vencidos, sejam: a) inovação tecnológica - com a criação e/ou fortalecimento das políticas públicas que ampliem o capital disponível para empresas nascentes, regulamente a política de propriedade intelectual, modernize a infra-estrutura dos órgãos reguladores, fortaleça escolas técnicas e centros de pesquisas e ampliem o ensino do empreendorismo nas escolas e universidades; e b) qualificação profissional - criação e fortalecimento de centros e escolas técnicas de ponta e dotadas de estrutura para formação de profissionais aptos a atender a demanda atual e potencial nos diversos setores, envolvimento simbiótico da empresa no processo de formação técnica (única capaz de definir o grau de capacitação requerida), estreitamento de relações entre universidades e empresas e a conseqüente adoção de um currículo mais pragmático e profissional.
 
A boa notícia é que a globalização tornou o cenário praticamente único para todos os países em desenvolvimento. Ou seja, os ingredientes macroeconômicos e os desafios tecnológicos são basicamente os mesmos para todos. O que vai ser determinante para seu posicionamento na escala que vai do sucesso pleno ao fracasso completo será a maneira como esse “carbono” será manipulado, combinado e rearranjado na economia global. Entretanto, a qualidade e capacidade dos seus “alquimistas” será o fator que decidirá se daqui a uma década o Brasil terá transformado essa oportunidade num belo diamante ou numa simples pedra de carvão. 
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